Uma aprendizagem

Sobre roque éne role e o mundo em geral (parte dois)

Plácidos Domingos, final

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Arriverdeci, Roma

 

Porque tudo acaba com uma canção, número dois

O último Verão na S. Marçal (mesmo o que eu precisava / mesmo o que eu não precisava)

I’ve been waiting all my life / I’ve been waiting for some real, good assim que soube da notícia da casa suspeitei que isto ia acontecer. A frase “O último verão na Praça das Flores” como que se colou no céu, um título inquebrável para o resto do tempo que se seguiu. Claro que não é uma coisa assim tão grave, digna de parágrafos infindáveis construídos sobre um berrante virtuosismo estilístico. É só o fim, e o fim é parte da vida, quer gostemos, quer não. O fim e o início. E o fim de novo, e o início outra vez, e rola a bola, e rola bem. E segue, não é?

Dito isto, acho que o verão é um tempo óptimo em abstracto, mas terrível para se viver em concreto. Está tudo tão distante, e ao mesmo tempo, tão perto. É um tempo para não se estar no tempo, se me permitem o almadismo. Imaginem agora passá-lo a trabalhar em artigos académicos numa casa que vai ficar vazia, para depois ser destruída. Para mim vai ser uma perda grande: não consigo imaginar o que é não poder voltar ali, aos espaços da minha infância, adolescência, e início de idade adulta — em suma, o espaço de toda a minha vida.

Apeteceu-me, por isso, ter não um, mas vários momentos a sós com a casa. Passar outra vez uma noite no jardim, sentado nas cadeiras verdes do jardim, a sentir em pleno o calor de Verão, com uma cerveja ao lado e uma viola acústica acompanhada de um baixo contínuo a tocar no fundo lá dentro de onde as canções saem, sabem? a única banda sonora possível para este espaço pequeno. Window facing, an ill-kept front yard / Plums on the trees, heavy with nectar. Deus está aqui ao lado a bem dizer, está em todo o lado num abraço suficientemente aconchegado para esta alma pecadora, divertida e continuamente por muito endireitada que aparente estar, por estes dias desorientada.

Se isto fosse fácil, eu não o uso muitas canções, já devem ter reparado. Pois bem. Há quem tenha poemas na língua, eu tenho línguas de canções. E melodias, quilos de melodias para os dias que passam. Antigamente as canções davam-me para escrever. Aprendi no último ano a viver no silêncio, guardando estes preciosos momentos de escrita para quando fossem mesmo necessários. É que aprendi, mais por mim do que por este blogue, que há coisas importantes na vida, mas são poucas. Há outras coisas boas, mas não são importantes. E assim se segue, enquanto a cerveja vai acabando lentamente neste espaço esvaziado.

Olhando para trás, reparo que foram dois, três anos de aprendizagem, jurídica mas não só. Prazeres, muitos, alegrias, também. Aprendi que  há muitas coisas no mundo que são simples, mas que há algumas coisas que são verdadeiramente complicadas, lá isso há. O que fazer? É preciso ter fé, e humor, e esperança, e trabalho, e viver. Acima de tudo, viver. Por exemplo, sei que, por onde quer que ande, vou sentir emergir um qualquer “canto de mim mesmo”, provocado pelas imagens e luzes que se me apresentam. Sei que o meu coração, depois de uns meses de sono, vai acomodar de forma violenta tudo isso, quiçá para sempre.  Talvez chegue a escrever sobre isso, ou talvez sobre coisas nada a ver, ou talvez sobre pessoas ou personagens, ou pessoas-personagens, ou discos ou filmes ou o que raio for. E sei que vou continuar a ouvir e a sentir as canções que ouço, caindo perdidamente por todas aquelas que que me façam sentir como quando tinha dezassete anos. Isto porque, caso ainda não saibam, tudo começa com uma canção / tudo acaba com uma canção. Acima de tudo, é preciso viver. E por isso, este blogue, tal como a vida na casa, tem de acabar.

Termino com uma expressão que me diz muito, da Segunda Epístola de São Pedro: “esforçai-vos quanto possível por juntar à vossa fé a virtude, à virtude a ciência, à ciência a temperança, à temperança a constância, à constância a piedade, à piedade o amor fraterno, ao amor fraterno a caridade”. Acho que resume bem o que foram estes três anos, e o que devem ser os próximos tempos. Foi bom ter escrito aqui durante este tempo. Agora, a vida, apenas. Sejam felizes. E roque éne role, hein?

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A estrada, novamente

Ao deitar, no meu quarto de paredes vazias passam imagens de um vale de oeste fordiano, sem fim à vista, para onde se parte num exílio de trabalho e devoção, aguardando o momento em que se regressará para a prosperidade. Todo o caminho é uma estrada, mais ou menos ansiosa, mas sempre percorrida. Prego a fundo.

O último Verão na S. Marçal (000000000 milhões)

Must’ve been forces sabem o que é estar numa sala vazia? Falo de uma sala grande, de pé direito alto. Aquele bocado de tecto caído é recente, demasiado, tendo em conta os vinte e quatro anos deste sítio. É verdade, vinte e quatro anos. Quantas vidas nem ao triplo disso chegam? A sala, grande e vazia, como a casa. As seis janelas, com a luz dos candeeiros da S. Marçal a entrar. A madeira escura, estranhamente fria, sob as costas. Resta um candeeiro roubado ao andar de cima, a única divisão ainda por esvaziar, juntamente com o meu pequeno espaço, do outro lado do terraço. Sabem o que é sair de uma casa onde viveram practicamente toda a vida? De um espaço onde amaram, pecaram, riram, sofreram? Sabem? É uma coisa engraçada, porque — achava eu — não me estava a custar nada. A mim, ao rei da melancolia assolapada que os objectos e cenários mundanos provocam, por intersecção do mistério divino da existência. Talvez a culpa tenha sido da canção é sempre da canção, não é? do novo disco do Bon Iver. É uma balada ao piano dirigida em cheio ao peito. Daquelas que, como tudo o que nos é mais próximo, nos faz sentir como um miúdo de dezassete anos, estupidamente ingénuo e estupidamente sentido, mas mas o quê? vivo isso mesmo vivo como quando estamos com um grande amor, quando nos sentamos junto à nossa família, ou bebemos uma cerveja com grandes amigos, ou diz lá, white ferrari como no meio de um campo qualquer, de árvores mais altas que esta sala, céus tão claros e calor tão intenso, o vento na cara e nas folhas, sentados numa tábua em cima do pó do chão e sabendo sempre soubemos, e sempre sabemos, mesmo quando, por nossa própria culpa, falta ou maldade, pretendemos fechar os olhos e esconder que estamos acompanhados, nesta nossa aventura pelos dias. Mas agora não consigo fechar os olhos, nem me apetece levantar deste chão. Passam-se os anos à minha frente, naquele tecto branco. Tanta parvoíce, tanta tralha emocional. A casa é onde o coração está, não é o que diz o clichê? Pois. É que é mesmo isso. Deixo-me assim, por uma, duas, sei lá as horas ou o tempo. Se algum dia me voltar a sentir assim, devido a um sítio, então já sei o que lhe posso chamar. Sabem o que é estar numa sala vazia? É um amor imenso que não se controla. A vida, apenas.

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Porque tudo começa com uma canção, número um

Disse o teu nome
numa sala vazia
Disse o teu nome
numa sala vazia
Algo que eu
nunca faria
Algo que eu
nunca faria

Estou só, outra vez

Posso ser eu mesmo quando estou a sós
A vida a chegar e venha o que vier

Tu ardias, agora
és fumo e cinza
Tu ardias, agora
és fumo e cinza
Algo que eu
nunca diria
Algo que eu
nunca diria

Estou só, outra vez

Posso ser eu mesmo quando estou a sós
A vida a chegar e venha o que vier

Toda a minha vida é contigo
Mas enquanto espero, tu partes

(Empty Room dos Arcade Fire, infantilmente traduzida)